27 junho 2011

Butoh como experiência numinosa


Nas sociedades ditas “tradicionais” a religião cumpre um papel central na organização psicossocial de um grupo. Ela justifica a hierarquia política ao mesmo tempo em que oferece uma narrativa pseudo-histórica de uma tribo. Ela é uma totalidade que se reflete nas mais simples tarefas diárias. Tudo o que é aceito e tudo o que é banido em uma sociedade arcaica encontra seu modelo comportamental na religião. Ela é a mesma para todos e se constitui de verdades inquestionáveis.

Na complexidade das sociedades modernas, onde a ciência guarda o poder sobre a verdade, a força da religiosidade se diluiu. As experiências de transcendência são menos comuns e são desvalorizadas pelo pensamento científico racional. A razão está no centro da sociedade. A experiência do divino não pode ser justificada pela razão porque extrapola seus limites, logo, esta vivência do poder do sobrenatural, que já foi central para o homem, resta sem ressonância.

A arte passou a ocupar este lugar onde a ciência não se infiltrou. O homem moderno pode encontrar na arte uma experiência transformadora, que o arrebate. Encontra no teatro um resquício de ritualidade: o local da apresentação em geral é escurecido, o ator ocupa o papel do sacerdote e a narrativa (ainda que fragmentada e desconstruída) conta sobre um aspecto da construção subjetiva do homem. É o equivalente no homem à Teogonia, seria a antropogonia, a origem do homem, do humano no que lhe é singular.

A arte como forma de experimentar a força do sobrenatural enquanto se retrata uma condição humana geralmente se constitui numa forma de recepção que engaja os sentidos tão intensamente que parece ser extra-sensorial. É uma forma de vivenciar a arte que transborda os limites psicofísicos do intérprete e do espectador. Transporta a ambos, unificados, para um outro local e um outro tempo. Este tipo de experiência artística pulsa no butoh: “butoh, mais ainda que as outras danças, surpreende a mente racional pois não comunica sentido denotativo discreto;”(Fraleigh/Nakamura 2006)

O butoh surgiu no Japão após o término da segunda guerra mundial como um movimento da sub-cultura, tendo sido iniciado por Tatsumi Hijikata (1928-1986). Este cresceu num distrito pobre  e viveu a ascensão e queda militar japonesa seguida de um período intenso de ocidentalização. Em ’46 ele iniciou seus estudos em dança moderna que perduraram até os anos ’50 quando ele compreendeu que seu corpo não tinha sido moldado para aquele tipo de movimentação. Se voltou então para suas raízes de uma infância rural japonesa que havia construído seu físico e a dançou.

23 junho 2011

Cast Shadows 1 - Shirin Neshat

Cast Shadows é uma tentativa de fixar a memória de imagens que me tocam. As imagens originais que foram apreendidas são de Shirin Neshat e fazem parte da série "Women of Allah". /// Cast Shadows is an attempt to capture the memory of images that move me deeply. The original photographs are by Shirin Neshat, part of her work "Women of Allah".
2011.1



(para Murilo Meihy)

SweetNoise - experimento no.2

2 by bonomosweetnoise

A vida oculta do corpo

ou Por debaixo dos Panos

1 [2009.2]

Severina

RotaH - Living in the Musicals

Uma playlist, três pessoas, living in the musicals /// One playlist, three people, living in the musicals

RotaH [Luciana Palhares+Gabriela Bonomo+Paula Linhares+Rafael Ramadan+Valdemy Braga]

Fotos de / Photos by Valdemy Braga
Video de / by Rafael Ramadan

Sincronizando
And we're off...


Destino Final - MAM Rio


Aproveitando o suor para lembrar Yves Klein

RotaH - Desabafo em 5 minutos

Ouvimos o desabafo de quem precisasse em cinco minutos. No final ganha adesivo! /// We let people blurt out what they had to in five minutes. In the end they get a sticker!

RotaH [Luciana Palhares+Gabriela Bonomo+Manu Borghi+Renata Dillon]

Fotos de / Photos by Renata Dillon





RotaH - Qual é a sua história?

RotaH cria performances e artes em geral. RotaH é Gabriela Bonomo e Luciana Palhares e outros colaboradores queridos. /// RotaH creates performances and other arts. RotaH is Gabriela Bonomo and Luciana Palhares and other dear collaborators.

Qual é a sua história? 

performance realizada ao longo de dois meses onde eram ouvidas histórias de vida daqueles que por ali passavam e sentavam. /// a performance done for two months where we heard the life stories of those that were passing by and decided to sit down




Visão de Macabéia

  
Visão de Macabéia por Gabriela Bonomo, 2010


"A maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio que enche a alma dos santos [...] Mas tinha prazeres. [...] Tornara-se com o tempo apenas matéria vivente em sua forma primária. Talvez fosse assim para se defender da grande tentaçnao de ser infeliz de uma vez e ter pena de si. [...] Mas não havia nela miséria humana. É que tinha em si mesma uma certa flor fresca. Pois, por estranho que pareça, ela acreditava. [...] Existia. Só isto. E eu? De mim só se sabe que eu respiro." Clarice Lispector, A Hora da Estrela

Medeia Redux - Neil LaBute



como ele recria a personagem trágica no mundo contemporânea






Começarei pela origem do nome Medéia segundo o dicionário Mítico-Etimológico de Junito Brandão. [Mhdeia] (transliterado do grego arcaico) deriva do verbo [mhdesqai] que significa “arquitetar um projeto, ter em mente uma idéia, planejar”. Então Medéia seria a hábil em planejar o mal, a desgraça alheia.
No original de Eurípedes a personagem compartilha com a platéia todo o processo de arquiteturação de seu plano. A decisão de sacrificar os filhos para se vingar de Jasão e de sua nova família de desenrola durante algumas páginas. O mesmo não acontece na peça de Labute. Em Medea Redux descobrimos de forma súbita a morte não premeditada do filho pela mãe.
O filicído une as personagens, assim como o amor por um homem que as abandona. A de Eurípedes, no entanto, é uma bárbara, bruxa filha do Sol, mais velha que seu homem que abre mão de toda a sua família para seguir com Jasão à sua terra, onde é trocada por uma mulher mais nova de família real local. A de Labute, no momento da narrativa já é uma mulher, mas quando se apaixona é uma menina de 13 anos que não entende o que está acontecendo com ela, mas segue seus sentimentos. Se deixa levar pelo amor a professor, que a introduz à mitologia grega e à sexualidade. Dele ela engravida, faz promessas de não revelar quem é o pai, nem mesmo que seu pai a agrida. Ela descobre que foi abandonada por acaso e não tem com quem compartilhar sua dor.
No original quem guarda a sabedoria é a mulher, no redux é o homem. Ainda assim, em ambos os casos quem opta por uma solução cômoda são os homens. Jasão escolhe a família real, o professor escolhe se mudar.
Se na peça grega Medéia tem total consciência do ato que planeja, suas consequências para si mesma e para os outros, na americana a personagem toma suas decisões de forma inconsciente. O momento de elaboração sobre seus atos é o momento da narrativa frente à platéia.

Les fables à La Fontaine - Lia Rodrigues



Lia Rodrigues faz espetáculo de vinte minutos a partir das fábulas de La Fontaine

A proposta veio de Annie Sellem e do Petit Fabrique. Doze fábulas, uma fábula para cada coreógrafo. As condições que regiam o trabalho eram que a encenação fosse curta e leve como os contos do autor, por isso a duração pré-determinada de vinte minutos, e que tivesse um elenco pequeno, uma média de dois bailarinos. Deveria ser palatável a espectadores de 7 a 77 anos e deveria fazê-los parar para pensar no que viam e ouviam das histórias que desde sempre povoavam seus imaginários.
         Jean de la Fontaine foi um escritor francês que nasceu e viveu no século XVII. Escreveu romances, poemas, contos e fábulas. Estas últimas são suas obras mais conhecidas, ouvimos suas histórias desde criança em todo o mundo. Geralmente os personagens são animais com características e comportamentos humanos, falam e se vestem, como nas fábulas de Esopo, contador de histórias da grécia antiga. Cada história versada tem uma moral implícita, nem sempre justa, mas que reflete bem a variedade de relações entre os homens. O primeiro livro de fábulas foi dedicado ao filho do rei Luís XIV e parece ter sido encomendado por este justamente para a educação do príncipe.
          Lia Rodrigues é uma coreógrafa brasileira cuja companhia de danças já tem vinte anos de atividades. Premiada nacional e internacionalmente, a companhia desenvolve um trabalho que procura “estimular a reflexão, proporcionar espaços de debate, sensibilizar outros indivíduos para as questões da arte contemporânea, gerar encontros intelectuais e afetivos, além de apoiar e investir na formação e informação de novas platéias”.  Eles criaram o Centro de Artes da Maré, na comunidade de Nova Holanda, onde trocam conhecimentos e experiências com outros artistas e moradores da comunidade, desenvolvem projetos de aulas de danças que possam interferir de forma social, educacional e cultural nas trajetórias de seus alunos, e, finalmente, onde ensaiam e produzem seus espetáculos.
            Ao ser convidada para participar do “Les Fables”, Lia procurou encontrar uma fábula que comartilhasse dos temas que inquietam sua companhia. A busca era por um texto que, ao ser transposto para a cena, deixasse uma pergunta (ou talvez várias) preferencialmente sem resposta. Chegaram então a uma fábula pouco conhecida, “Contra aqueles difíceis de agradar”. A relação entre crítico e artista (esse crítico também pode estar dentro do próprio artista), o que se espera do artista, o que o artista espera do crítico, o tom autoritário do crítico, a subserviência do artista, o desejo de agradar, por quê? Todas estas questões pulsam nas palavras do autor e podemos entendê-las como relações de poder cambiantes.

Ponto 1

Uma cama me segura. Densa, ligeira. Segura. Constante desejada. Constante indesejada. Constante. Contínua segurança de um estar. Não sei se bem-estar. Mas estou. Algum atrito se insinua, tímido. Como um rato corre pela noite sem querer ser percebido, suas patas roçando o chão duro da natureza humana. Mas eis que sim! Um pássaro o vê, ou serão máquinas? Máquinas que o homem fez, imitam pássaros/máquinas que o homem fez imitam pássaros? Imitam? Imí imí imí      imitam o movimento grunhido do moedor. Mói as patas do rato que quis correr pelo homem.  O homem O. O homem, ó. Ó homem falador. Palavras, palavras, palavras. Apenas, apenas. Pequenas. Pequenas palavras do homem que fala do rato que moeu. Pequenas, apenas. (A pena do rato foi correr fora do mato. O rato roeu a roupa do rei de roma e ruiu como Tróia.) Trota agora o cavalo cheio de homens e atravessa com seu sonido o silêncio da cama constante, incessante, inquietante, cama densa que me fagocita.

……………………………………………………………………………

pássaro.
Agora pássaro.
Pássaro sobre máquina. (Óleo sobre tela)
pá pá pá pá pá pá  PÁS – SÁ – RI – NHO
Os troianos circulam estéreo, guardando as chaves das sete portas. (a tecnologia ainda não tinha surround)
Ouço os ossos cansados quebrando, os pés castigando o chão e os troianos circulam de lá pra cá.
Uma folha cai, levanta e senta.
Os corpos se movem cansados sobre os pés dos guerreios. Os ratos se insinuam entre eles.
Um aviso dos céus, o riso escapa apertado. As mulheres estão chegando. Schê____. Schê____. Gán!
Sobre a alegria cai a cama do som. E as mulheres avançam.
Txxx. Cai a pressão. Cuidado pra não cair como a cama do som. Não cai no chão, cai no som da cama. Cai na cama e hierós gamos. Me abre, me bebe, me chama de coca-cola. Aaaaah!
-       nossa, até estalou!
Mas os carinhos continuam, e acariciam, sobre a cama do chão, a pele seca e móida, o ar entra. O ar sai. Suspiros surprise. Até a máquina suspirou. O amor inspirou e se soltou. Se m(o)exendo se moveu. Procurou as chaves, alisou a roupa. Deu um clique. /Clique/clique/
Carícia sobre a seca. Seca carícia. /clique/clique/
Uma mulher. Corpos. Sinos.
Os ossos se quebram.
/Clique/clique/clique/clique/clique/
Corpos se movem. Se encontram?
Passa a carroça, nessa vida tudo passa, mas tudo passa, tudo passará, eles passarão, eu. Passarinho no céu? Máquinas. De guerra? Já passou. Depois vem a tempestade. O zunido é o que sobra além da cama onde mora o som. Ratos roem o ruído. O vento voa uma folha.

Mulher ocidental

Vi duas mulheres e um homem. Duas mulheres de roupas estampadas e um um um um homem de roupas ocidentais caracterizadas a la indiana. Com colares indianos e falando da Índia. Quando os vi os fundi. Vi um homem só com o torso e braços todos tatuados. Um torso só, dois braços. Não era uma figura do Zhang Huan. Era só um homem. Só? Acho que ele não sabe que o vi assim. Uma das mulheres reparou. Acho que ela pensou que estivesse interessada sexualmente nele.
As mulheres sempre pensam isso. Os homens também. É uma das primeiras possibilidades que vêm à cabeça. Na verdade quando homens e mulheres se relacionam, em algum momento passa pela cabeça a possibilidade de um envolvimento sexual. Sexual não é amoroso. E amor não é sexo. Acontece dessas coisas se encontrarem. Mas não precisa ser assim. O encontro dessas duas coisas não é felicidade. Felicidade não é falta de sofrimento. Sofrer também não quer dizer deixar de estar feliz. Eu mesma. Eu sofro, mas sou feliz. Hahahahaha!!!!! Ser feliz não é o que você tem, é o que você traz em si. Como se vê o mundo. A sede de tomar o mundo num gole só pode ser carregado de felicidade [diferente de alegria] ou pode ser carregado de sofrimento [quando então engolir o mundo pode ter a dor de pari-lo, e essas coisas não devem ser confundidas]. Primeiro a gente come, depois a gente dá a luz.
 
Tem tambores no meu peito que tocam quando a vida precisa. Eu tenho minha discoteca dentro do meu corpo.

Eu ouço coisas onde elas não estão.

Preciso resgatar a vida que está sendo logged and transferred para fora do meu corpo. Vou dançar.

Chamaram de Manifesto

O que é ser artista? A arte está nos olhos de quem vê. Mas o artista, com sua obstinação, repetição, insistência, acaba sugerindo ao outro um olhar.
            Como se vê? O que se vê? O que se vê é o que se produz? Não é válido, para mim, perguntar “O que é arte?”ou dizer “É bonito. Mas é arte?”. Não é uma questão de nomenclatura. O signo lingüístico já está desgastado.
            Acontece ser essencial, como homens, pessoas vivas, que sejamos atravessados por sentimentos. O artista entra aí pra mim. Ele luta pelo não-embotamento das sensações do homem. Da sensibilidade do homem. Como passar do tempo, dos anos, certas obrigações sócio-econômicas nos ensinam a controlar nossa emotividade. Aprendemos a não nos espantarmos, a não chorarmos, a rirmos controladamente.
            Há quanto tempo você não chora copiosamente? Liberadamente? Há quanto tempo você não tem um ataque de riso da barriga ficar dura e doendo de tanta gargalhada? Há quanto tempo você não pára para ver os raios do sol atravessando as folhas das árvores? Há quanto tempo você não se permite o tempo de sentir?
            Aceleramos a vida porque os sentimentos demandam tempo. Sem tempo não temos surpresas sentimentais. Sem tempo não podemos descobrir, lentamente, aos poucos, que estamos nos apaixonando. Sem tempo não podemos descobrir que amamos, ou que deixamos de amar.
            Só os sentimentos-bazooka interrompem a correria das tarefas cotidianas – quando trabalhamos para nos afastarmos de nós mesmos. Uma morte súbita, uma paixão louca, uma traição, um desespero.
            A arte precisa dilatar o tempo para abrir espaço dentro dos homens para a emotividade florescer.
            A arte puramente técnica é resultado (e crítica também, por que não?) do anestesiamento em que vivemos hoje.
            Andamos como máquinas desesperadas para esquecer que estamos vivos. Que sentimos, que choramos, que gozamos. A arte deve falar disso. E deve lutar por isso.
            Devolver ao homem os seus sentidos, para que possa se ver e ver o outro. Devolver ao homem a capacidade de ver, escutar, sentir, provar, cheirar. E mais, deixar o que for captado por seus sentidos tomar sentido dentro dele. Não basta sentir um cheiro, é preciso que sejamos afetados por ele.
            É preciso que a vida nos afete.
            Levanto a bandeira dos grandes sentimentos:
                        O prazer dos raios de sol esquentando a pele.
                        Um pedaço de chocolate derretendo na boca.
                        O olhar de quem se ama.
                        O choro de um amigo
                        A dor de uma morte.
                        O buraco de uma falta.
            É pra isso que há arte.

Gabriela Bonomo
Rio, Junho de 2010

A menina e o mato

Na estrada o mato  cresce, cresce. E a menina cansada, hiberna. As folhas sobem, cobrem o sol. O ar fica frio, úmido e a menina acorda. Olha pros lados e a estrada sumiu. Ela precisa encontrar seu norte novamente. E abrir a estrada. De novo. De novo. De novo. De novo. De novo ela cansa. Pára para descansar. Repousa, adormece. E o mato cresce.

Electras

Colagem de Electras (Sófocles e Eurípides)/Hamlet (Shakespeare)/Senhora dos Afogados (Nelson Rodrigues)/Hamlet-Máquina (Heiner Müller)/Poesia sonora/Björk/Lobão e Lilian
1.
(Com vasto uso de todos os meios possíveis – humanos ou eletro-eletrônicos)
Na voz que alvorece, o pranto noturno a meu pai, às escâncaras! Oh! Dor! Oh! Dor! É o timbre turvo do Hades, pai! Aperta o passo, é hora! Agora! Na jornada contínua, te oferto meus ais, ó subtérreo, unhando a gorja, golpeando a cabeça sem cabelo, sofrendo só. Oh!, avança, avança pranteando!
Sim, pai, cometi um crime, depois outro, e por ti meu pai. Nesse momento sua mulher está com outro, e acariciando o corpo de outro com as mãos. Mãos que me tiram (duro revés!) a vida, mãos que me arruínam. As mãos. E por que não a castiga nas mãos? As mãos são mais culpadas no amor. Pecam mais, acariciam. O seio é passivo, a boca apenas se deixa beijar, o ventre apenas se abandona, mas as mãos não! São quentes e macias, rápidas e sensíveis, correm no corpo. As mãos.


It's early morning
No one is awake
I'm back at my cliff
Still throwing things off
I listen to the sounds they make
On their way down
I follow with my eyes 'til they crash
I imagine what my body would sound like
Slamming against those rocks
and when it lands
Will my eyes
Be closed or open?
Agora é manhã
Ninguém acordou
Olho o mesmo abismo
Lanço as coisas lá
Caindo seus sons me alcançam
Na longa descida
Meus olhos seguem seu estilhaçar
Passa por minha cabeça o som de meu corpo
Lançando-se contra as rochas
E ali pousando
Estão meus olhos
Abertos ou fechados?



Aqui fala Electra. No coração das trevas. Sob o sol da tortura. Para as metrópoles do mundo. Em nome das vítimas. Rejeito todo sêmen que recebi. Transformo o leite dos meus peitos em veneno mortal. Estou só com meus seios, minhas coxas, meu ventre. Eu sou Ofélia. Aquela que o rio não conservou. A mulher pendendo na corda. A mulher com as veias cortadas. A mulher com overdose SOBRE OS LÁBIOS NEVE a mulher com a cabeça no fogão a gás. Ontem parei de me matar. Estava costurando no meu quarto quando o príncipe Hamlet me surgiu com a camisa toda aberta, os cabelos desfeitos, as meias sujas, caídas pelos tornozelos, branco como a camisa que vestia, os joelhos batendo um contra o outro e o olhar apavorado de quem foi solto do inferno pra vir contar cá em cima os horrores que viu. Queres comer meu coração, Hamlet? Pois fala, se na fala achas prazer!

Poesia sonora do futurismo russo
[no quadro: Futurismo russo. Poesia sonora de Velimir Khlebnikov “Zangezi – A linguagem dos deuses” usando a língua experimental transracional/transmental Zaum. Língua acima dos significados. Através dos sons puros uma comunicação poética universal. “O Zaum acorda e libera a fantasia criativa sem  ofendê-la com referências concretas. Com o significado a palavra se contrai, se contorce, se cristaliza, enquanto Zaum é selvagem, inflamado, explosivo (paraíso selvagem, línguas de fogo, carvão ardente)” Aleksei Kruchenykh]

Falem essas falas como eu as pronunciei, língua ágil, bem claro? Ó ver tão nobre espírito assim tão transtornado! Admirado pelos admiráveis – caído assim, assim destruído! E eu, que suguei. o mel musical de suas promessas.? Tenho lembranças suas que desejava muito lhe restituir:
Bem cedo, eu, donzela, estarei em sua janela. E ele acorda e se veste e abre o quarto para ela. Se vê a donzela entrando, não se vê sair donzela.
Pelo menos foi curto. Queimei as memórias. Não existem mais retratos, nem as roupas, que destruí; Destruo o campo de batalha que foi o meu lar. Rebento os instrumentos do meu cativeiro – a cama, mesa, a cadeira. O que deve ser feito será feito por mim sozinha, do começo ao fim! “Before you tumbled me you promised me to wed. He answers – So would I have done, by yonder sun, and thou hadst not come to my bed.” “Eu te amei um dia. Cheguei a acreditar. Eu não te amei. Tanto maior o meu engano.” Abaixo a felicidade da submissão. Escancaro as portas para que o vento possa entrar e o grito do mundo. Despedaço a janela. Viva o ódio, o desprezo, a insurreirção, a morte. Quando ela atravessar os vossos dormitórios com facas de carniceiro, conhecereis a verdade: Eu era Hamlet.
Recusei suas cartas e evitei que ele se aproximasse. Foi isso que o enlouqueceu. Parado à beira-mar falava BLA-BLA com a ressaca. A paixão não tem nada a ver com a vontade. Quando bate é o alarme de um louco desejo. Não dá para controlar, não dá. Não dá pra planejar. Eu ligo o rádio e blá-blá. Blá-blá-blá-blá Eu te amo. “Eu te amei um dia. Cheguei a acreditar. Eu não te amei. Tanto maior o meu engano.” Com as mãos sangrando eu rasgo as fotografias dos homens que amei e que se serviram de mim na cama, mesa, na cadeira, no chão. Toco fogo na minha prisão. Atiro minhas roupas no fogo. Exumo do meu peito o relógio que era o meu coração. Eu vou pra rua, vestida em meu sangue.

 (Lilian cantando Sou Rebelde)
 Eu sou rebelde porque o mundo quis assim
Porque nunca me trataram com amor
E as pessoas se fecharam para mim

Eu sou rebelde porque sempre sem razão
Me negaram tudo aquilo que sonhei
E me deram tão somente incompreensão.

Eu queria ser como uma criança
Cheia de esperança e feliz.
E queria dar tudo o que há em mim,
Tudo em troca de uma amizade.

E ­­­­­­­sonhar e viver
Esquecer o rancor
E cantar e sorrir
E sentir só amor.
 Gabriela Bonomo
Tradução da letra da Björk: Gabriela Bonomo e Luciano Garcez
Início: Rio, 9 de novembro de 2009
Término: Lumiar, 15 de novembro de 2009

Renúncia

2002

É difícil. É difícil acordar. Do sonho de infância. Crescer. Aprendendo a confiar em tudo e em todos sabendo que a vida vai dar certo pra você. Que no final você vai encontrar seu príncipe. Porque, afinal, você é do bem e você sabe disso. Aí você cresce. E fica menstruada. E você não sabe lidar com isso. A bela adormecida passou cem anos em cima de uma cama e nada nunca aconteceu com ela. Por quê que eu sangro? Começam a aparecer curiosidades sexuais, e de repente a sua referência de vida passa de filmes da Disney pra Pulp Fiction ou Sin City. E em vez de querer ser a boazinha, você passa a querer ser a boazuda, pra tá sempre rodeada de gente. Pra não correr o risco de ficar sozinha. É aí que você descobre que você é a mais sozinha de todas. E passa a querer ser a heroína, com princípios, acima de tudo. Você encontra o seu grupo de amigos. Então descobre que eles não são tão amigos assim, que você não tá segura, que você não pode ser você perto deles porque você pode fazer alguma merda. E você descobre que faz merda. Que às vezes você é o mau, que a vida não vai dar certo com certeza e que o mineiro realmente só é solidário no câncer. E solidário é o que ele aparenta ser, porque no quarto de hospital sozinho contigo na cama sem poder falar nada, ele pode fazer o que ele quiser.

As referências cinematográficas começam a subir à cabeça. Será que eu nunca vou ser quem eu sou? Sempre um outro alguém, irreal? E você tenta se desgrudar dessas referências mas não consegue. Tenta se convencer que ser gordinha não é um problema, que nem todo mundo malha e que isso não faz mal pro seu ego. Que todos os homens não babam pela primeira gostosa que vêem pela frente e que representa tudo o que você não é. Mas aí, você cai no alternativo. E são, basicamente, três personagens: o hiponga, o punk, ou o eletrônico (deixa pra lá) (minha música por favor) e os três são revolucionários, os três são cult, e os três são drogados. (minha música por favor) e você se encontra novamente no círculo dos filmes. Novamente um brinquedo do entretenimento. E você começa a aceitar isso. Tenta esquecer as cenas dos filmes pra não reproduzi-las conscientemente. Aquieta a angústia de descobrir que tudo o que você sempre achou que fosse seu não é. Por que não é mesmo. Desde a forma de namoro ao modelo do tênis, a sua mãe liberal, seu cabelo rosa choque, que já não choca mais ninguém, seu gosto por comida ou sua anorexia, as músicas que você ouve, e as que você detesta. Os nomes de chamar namorado. Tem um momento em que as variações acabam e você começa a repetir. Mô........ mô....... tudo já existia antes de você. O que cada um fez foi só escolher. Assim como se monta um prato num self-service cada um montou a sua própria personalidade. Tem pessoas que escolhem pratos prontos, já pré montados, com figurino e adereços, tudo. Mas não tem porque ficar desesperado mais, não tem como fugir. É tarde. É tarde desde que nascemos aqui.





Escrito e encenado por/ Written and performed by Gabriela Bonomo
Dirigido por/ Directed by Cristina Flores
Assistência de direção por/ Assistant direction by Ângela Câmara
Vencedor do prêmio de Primeira Melhor Esquete no Circuito Carioca de Esquetes de 2002 / Won first place in the Circuito Carioca de Esquetes in 2002